26/06/2012

Xoxota: Sagrada e Mal tratada

Dica  com recadinho do Zeca Lembaum 

Paloma, querida, o texto abaixo foi escrito há bastante tempo (acho que em 2004) – é uma resenha de livro que fiz pra revista da Livraria da Vila e pro site Oficina Informa. Recentemente o encontrei no velho baú de textos mofados (dei uma garibadinha, atualizada, para as Solteiras e Descoladas)

Ps: segue foto do livro em anexo para ilustrar o texto (mas se quiser botar outra imagem, não me importo)

Beijos procê e pras descoladas.     




XOXOTA: SAGRADA E MAL TRATADA

“La mar esposa bona, si veu el cony d’uma dona”  (provérbio catalão que diz “O mar se acalma se vê a buceta de uma mulher”)

Amigas, vocês já ouviram falar da crença catalã que atribui à vagina os poderes de controlar as forças da natureza e de afastar os maus espíritos?  E das russas que pra afugentar qualquer urso erguem suas saias?  E das mulheres da província da Madras, na Índia, que acalmam violentas tempestades expondo suas bucetas?  Não ouviram? 

Vocês sabiam que em diversas culturas, os gatos são associados à genitália feminina (em 1662 surgiu na Bretanha o nome pusse, como adjetivo de vagina: hoje, o termo se tornou pussy. Na Itália, gata é chatte e gatta, que também significam vagina. No Brasil temos chana e bichana pra designar a xoxota).

É com essas histórias que a médica inglesa, doutora em ciências, Catherine Blackledge, começa A HISTÓRIA DA V – ABRINDO A CAIXA DE PANDORA. Percorrendo interpretações históricas, antropológicas, lingüísticas, médicas, biológicas, religiosas e artísticas sobre a vagina, Blackledge, que não se afirma militante feminista, escreveu um delicioso livro sobre esse órgão, que é a sede do prazer feminino, tão representativo e pragmático para nós, os machos. Traduzido por J.M. Bertolote e lançado aqui no Brasil pela editora de sugestivo nome, DeGUSTAR, o livro é uma pesquisa que propõe desvendar “as maravilhas do corpo feminino”e de expor formas sistemáticas de repressão, preconceitos culturais e sociais, especialmente aquelas que se manifestam através de ideologias científicas e religiosas de diferentes épocas.  

Li no livro que há crenças de veneração da vagina na China, na Índia, no Japão, sistemas de teologia vaginal, mesmo! Acreditem que até no islamismo há um lugar para a adoração do órgão: em Meca, o santuário mulçumano mais sagrado, dentro da Caaba, aquele grande cubo onde todos oram em volta, existe uma rocha negra cravada no chão que é cercada por uma fixa de prata em forma de vagina. 

No capítulo “Vulvas, vulvas, vulvas”, a autora revela o fascínio do período pré-histórico pela vagina, assim como o pênis, ela era bastante representada em pinturas rupestres: é lógico que há a “simbologia arcaica da fertilidade ancorada no entendimento dos papeis de homens e mulheres nos tempos antigos”, mas Blackledge diz que a arte na genitália feminina é também uma criação da “fantasia, tanto factual como cultural”.

Porém,  é revoltante perceber o papel reacionário das principais igrejas cristãs que durante toda a história (até os dias de hoje) promoveram a noção de que o sexo não era para prazer, unicamente pra procriação. 

Não é de se estranhar que com o advento do cristianismo a vagina fosse escondida, “passando a ser fonte do mal e – conseqüentemente – algo a ser reprimido”. Santo Agostinho (354 – 430 dc) foi o maior filho-da-puta de todos. Escreveu ele: “nascemos inter feces et urinam (nascemos entre merda e mijo)”. Vocês sabiam que na Inglaterra, nos séculos doze e treze, a Igreja Católica declarou ilegais as atividades sexuais às quartas, sextas e domingos; bem como quarenta dias antes da Páscoa e do Natal

 Já ouviram falar do inglês Isaac Baker Brown? Pois não é que, no final do século. XIX, em Londres, esse respeitável médico realizava clitoridectomias (extirpação cirúrgica do clitóris) para tratar masturbação compulsiva em meninas e curar histéricas (acreditem: esse sujeito foi eleito em 1864 presidente da Associação Médica de Londres).

A dica está dada, minhas queridas. A leitura é prazerosa (a autora escreveu com entusiasmo e como pouco cientificismo – o problema é que a última edição é de 2004, impossível de encontrar em livrarias, somente em sebos e bibliotecas públicas). Eu recomendo!

Catherine Blackledge diz: “espero que, devido a este livro, você nuca mais olhe para uma vagina da mesma maneira de antes.

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