29 de mai de 2015

Cinquenta tons de quê?



Um monte falou mal, um monte falou bem, um monte me disse para assistir, eu relutei, um domingo qualquer, procura um filminho on line e ele tá lá!

Ok, porque não assistir, normalmente quando as pessoas criticam muito você acaba vendo para ter sua própria opinião! ( Isto sou eu, falando comigo mesma, sim, sou pisciana e faço isso a maior parte do tempo).

Na teoria da cor, o cinza se resume: Deriva do Latim cinis, “material sobrado de um processo de combustão, cinzas”. Esta cor pode simbolizar estabilidade, sucesso e qualidade, mas em excesso pode transmitir falta de vida. Algo que "se tornou cinzento" nem sempre é visto de forma positiva, pois o termo é comumente usado  para expressar morbidez e falta de vigor. É a expressão de neutralidade, símbolo da indecisão e da ausência de energia. Quanto mais sombrio, mais expressa desânimo e monotonia.

Poderia definir a película daí, mas resolvo ir mais além.

O filme começa lindo, cortes bem feitos, jogos de câmera sensacionais, por alguns instantes disse a mim mesma, pô esse filme é foda!

Eis que surge o cara, definido pelo site da trilogia: Christian Grey, é misterioso, bonito e bem-sucedido. Com menos de trinta anos, o CEO e fundador da Grey Enterprises Holdings comanda um negócio multimilionário e possui uma imensa fortuna. Reservado e atraente, é um homem de hobbies caros e comportamento extremamente controlador.

Homens abaixo de 30 passam longe do meu interesse, a conversa não é produtiva e na dúvida já deduzo que um cara desses não tem experiência para o básico da alegria feminina: Chupar buceta!

Calma gente, explico! Ele é engomado, usa um terno implicantemente bem passado, cabelo perfeitamente penteado, barba? Nem pensar e quando ele tira a blusa além de não se ver um fio de cabelo que seja naquele peito, ele ainda se move na intenção daquela típica postura, “ Olha como sou gato, forte, sarado e viril”.

Antes de falar da Ana, um parênteses:

Quem nesta vida faz um contrato com alguém para trepar? Eu! Eu já fiz isso, eu casei por um contrato, ou melhor, eu fugi do cartório convencendo o pseudo marido a uma cerimônia performática onde assinamos um contrato idêntico ao que se assina quando se casa num cartório. Pausa dramática para falar comigo mesma: Tá vendo, assiste o filme sem preconceito, como já ouviu de amigos queridos: “ Cada um tem a putaria que merece”. "O roteiro é estranho mas o seu também não é lá das melhores."

Ok! foca no filme, ou não, dale roda de conversas pois um monte de gente já viu esse filme e para uma coisa ele vale e muito, fomentar as conversas e declarações das experiências sexuais de seus amigos, até que alguém te conta que a autora escreveu boa parte do livro pelo seu Blackberry.

Eu estou tentando, eu juro, mas porra, no Blackberry! Daqui mais uma lição: Sou nerd demais e preciso começar a fazer coisas mais populares sem planejar muito, quem sabe assim vendo milhões e fico rica.

Anastasia Steele: É jovem e inocente, aos vinte e um anos, nunca teve um namorado. Estudante de literatura inglesa na WSU de Vancouver. Ana trabalha meio período numa loja de material de construção e divide um apartamento próximo ao campus da universidade com sua melhor amiga.

Eu pegava fácil! A menina é uma gata, é virgem, é gente boa, mora num apartamento legal e não tenta em nada fazer a linha engomadinha, ela tem um fusca e trabalha de guarda pó! Me lembrei de quando tinha a idade dela e trabalhava num posto de gasolina trocando óleo de carro, isso é uma verdade e conto mais, homens tem tesão em mulheres de guarda pó que cuidam dos seus possantes e tem as mãos sujas de óleo.

Personagens descritos, opiniões e identificações declaradas vamos a parte que todo mundo que leu o livro ou viu o filme queria de verdade: A subversão, a putaria, o dominador e a submissa!

Primeira foda: Joga os braços da mina pro alto, rende ela, dá uma pegada forte: gosto, porra, gosto muito, mas com o Grey não ia rolar não, eu deduziria que ele estaria me pegando assim para não atrapalhar o cabelinho dele ou mesmo pra não deixar marcas no seu corpo perfeito! Daí meu, não adianta pegar forte, começaria a pensar nesse cara como se ele nem tivesse pinto, tipo o boneco Ken que tive na infância!

Ah tá! O cara não dorme junto, ah...sifudê, se não me der conchinha e colo  faço greve, definitivamente essa onda de ser submissa não dá pra mim, acredito na parceria, no eu faço, você faz, você gosta disso? Opa! Foca no filme escrito num Blackberry.

Quarto de brincar: A mesma cara e gemido que ela faz quando ele a amarra, ela faz quando ele aperta o cinto dela para dar um rolê de avião ou quando pega ela bêbada no buteco, quer dizer: Garota virgem, ou, se fosse uma mina mais velha, gente que tá transando pouco e sente tesão até chupando Toddy quente de canudinho!

Porradas: A cara do mano não muda em nenhum momento, cadê o prazer dele em dominar? Só a garota quem goza? Vou precisar consultar minhas amigas que curtem a dominação para entender essa parte.  ( Rashtag confusa)

Corta pra palmada na bunda: Cara, essa cena é tão ridícula que se quiser entender, por favor assista o filme, que pessoa aceitaria uma coisa dessas? A Anastasia! E porquê?

Estou me eximindo dos preconceitos e tentando tirar alguma lição de tudo isso! Nós mulheres e nossa eterna arte de jogar a expectativa no outro, de nos iludirmos e ficarmos completamente idiotas quando nos apaixonamos, de esperar, aceitar, conceder para não perder e tomar porrada, no sentido literal ou não, até quando?

Ana é uma novinha apaixonada que tentou a todo custo entender a cabeça do homem que tirou sua virgindade, não acho mesmo que ela estava nem um pouco ligando para os presentes ou status social do cara, ela queria ele!

Sim, nós mulheres fazemos isso, faz parte do tal acordo de ser independente e conseguir tudo o que quer, até o dia que a gente enche o saco, ou não, e parece que aqui o papo é outro e nos próximos filmes, quem sabe, a autora passou do Blackberry para um Iphone e mudou o status da putaria.

Alô! Ei Vó, olha, a senhora lembra de uma caixa de livros que deixei na sua casa a uns 10 anos atrás? Então, pede meu tio para mexer lá e separar pra mim o Kama Sutra e a Casa dos Budas Ditosos, passo ai no fim de semana para buscar, vou precisar deles, Te amo! 

8 de mai de 2015

Dia das Mães




Ter um filho indesejado não é bom pra mãe e pior ainda pra criança que vai nascer e não tem culpa de nada o que pode ter ocorrido com a mãe para este vir ao mundo.
Conheço bem de pertinho histórias assim, crianças que cresceram furiosas e agora são adultos nada interessantes, crianças que cresceram deprimidas e adultos continuam não conseguindo se encaixar neste mundo doido por não acreditarem em si mesmo, crianças filhos de crianças mães que pariram entre os 14 e 16 anos de idade, crianças que passaram a vida inteira tentando entender o que fizeram de errado por não terem o amor que acreditavam ( correto pra uma gente pequena) e que mudaram toda esta realidade salvando sua própria vida fazendo o bem para outras pessoas, crianças que só cresceram, mas não tiveram apoio algum para formar seu pensamento e demoraram mais que o comum para tomar sua própria identidade e sua vida, guerreiros sobreviventes de uma gravidez onde a mãe por medo de morrer ou por não ter outra forma se viu obrigada a parir sem o direito de analisar a responsabilidade de uma vida.
Ser mãe, assim mesmo como ser pai, está muito além de gerar e parir, necessita criar este ser que veio ao mundo e no mínimo desejar e cumprir para ele sempre melhor do que o que foi feito para si mesmo, esta tarefa é árdua e necessita dedicação.
Para este dia das mães, ao invés de uma mensagem melosa homenageando a figura que se revirou bravamente para me criar até os meus 17 anos, me deu vontade de desejar outras coisas.
Para este dia das mães o meu maior desejo é que o assunto seja pauta prioritária, o Brasil tá mais que atrasado nesta questão ( mais pontos para beleza que é o Uruguai).
Desejo que as mulheres tenham o direito ao aborto, para que não se metam em açougues de fundo de garagem correndo risco de vida e sejam marginalizadas por isto, desejo que elas tenham o direito de escolha para que assim nos próximos anos cheguem ao mundo somente crianças que serão desejadas com todas as forças, são estas crianças o tal do futuro ou mesmo a mudança que queremos.
Para a minha mãe, que seja sempre em dobro o que ela estiver desejando pra mim, para as mães dos amigos, minhas amigas mães, os pais que cumprem também este papel e minhas mães emprestadas adotivas pelo longo da vida deixo um grande beijo!

10 de abr de 2015

Só mais uma carta de amor

Meu caro Jim Beam

Eu acredito em relações abertas, sou disposta a novas experiências, acredito em amor á primeira vista e tenho consciência de quantos anos nós flertamos a fim de estabelecer um contato mais íntimo.
Eu tento abrir meu coração para você, te paquero, te aceito, te bebo com prazer.

A diferença entre você e meu marido Jack Daniels eu sinto no corpo, você me causa morte súbita no terceiro shot enquanto o Jack me permite deleitar numa única noite de pelo menos metade de uma garrafa e suas maravilhosas dez doses sem gelo para brindar os amigos que não via há tempos com muito amor e calor.

Eu acordo lembrando de você, sinto dor de cabeça, dor na barriga e aquela sensação meio ruim de uma ressaca sem motivo aparente pra quem nem bebeu tanto assim.


Quando estou com o Jack, vou embora com sorriso no rosto e não perco dinheiro durante a noite (acredito que o taxista me passou a perna) além disso, acordo no outro dia com a mesma felicidade, um quentinho no peito, um cheiro bom, lembro de todos os brindes da noite anterior e são coisas assim que mantém a nossa relação firme há muitos anos e reacende a paixão avassaladora a cada novo shot. 


Faça como o Maker’s Mark, simplesmente me entenda! Eu quero você, mas preciso que seja menos possessivo sobre minha coordenação motora, que me dê espaço suficiente no dia seguinte para que eu não passe o dia inteiro lembrando de você, que me cause conforto em cada shot e que me faça bem durante e depois dos nossos encontros sem sentir ciúmes do Jack. 


Proponho tentarmos novamente no fim de semana, seja legal comigo, respeito sua jornada, tenho apreço e carinho por você, nunca mais repita o que fez ontem, você corre um risco enorme de cortamos relação para sempre. 


Beijo

26 de jun de 2014

POR UMA VIDA MAIS MOLHADINHA...

O que eu entendo é que estamos fadados a nos relacionar de forma a construir afetos feudais, presos aos reinos das rapunzéis a espera de seu único príncipe. Ou presos a um jogo de ordem eclesiástica que fulmina qualquer potencia sensível, qualquer convívio íntimo. Quando digo íntimo me refiro ao nu, ao inteiro, ao lamber, ao se desnudar para que o outro tenha acesso aos seus modos de ver o mundo.

O que eu entendo é que somos mirins demais no afeto, onde muros são erguidos a qualquer aproximação que fuja minimamente ao que fomos condenados: engessamento nas trocas. Onde não é possível olhar mais fundo, onde não é possível olhar para além da imagem, onde não é possível tocar no arrepio, nem nas palavras, quem dirá na pele. Ah! A pele!

O que eu entendo é que não há espaço para a dúvida, para interrogar- me ou interrogar -se. Não há espaço para pensar o novo, experimentar sem medo do erro, do gozo, do incerto, do intenso, do aparentemente livre, sem medo da culpa.

O que eu não entendo é um suposto desejo simbiótico de viver, duro, anestesiado e intoxicado de preceitos impostos há tanto tempo que simplesmente não acontece reflexão disso, muito menos a mudança de rota, menos ainda a percepção disso. A impressão que tenho é a de que não sabemos outros modos de operar no afeto que não esse (ou o outro extremo de pular de cama em cama sem fim, sem trégua, sem reconhecimento de si, quiçá do outro). Triste mesmo é pensar que somos diferentes, que somos uma geração que sabe amar, não sabemos. Triste é não ter a menor consciência de que nossa roupagem criativa de nada adianta frente aos beijos e abraços que fingimos a nós mesmos. Fingimos consistência.

Triste mesmo é perceber que realmente tudo se fecha quando o desejo só se sintoniza numa frequência absoluta, rígida. Alma sufocada, corpo paralisado, tesão que sangra.

E onde não há tesão não há solução! (porque os clichês também tem seus valores). (E às vezes me deparo com um tesão midiático, esquisitíssimo, forjado, coreografado e rápido).

Não tem conversa. Infelizmente continuamos sim a reproduzir nossos pobres ancestrais.
A gente não sabe conversar abertamente sobre afeto. Não sabemos falar do nosso lado de dentro, porque não sabemos e não queremos romper com essa lógica assassina de corações pulsantes.

A gente só deixar molhar um pouquinho, acho que pra não perder a esperança!
A gente só deixa entrar a cabecinha pra não morrer de tédio!
A gente esqueceu que gozar é viver!


11 de mai de 2014

Corpo território



Somos educadas a esticar os cabelos na chapinha, usar corpete apertado, salto que machuca o pé, depilar os pelos, fazer as unhas, tirar as sobrancelhas, modelarmos o corpo, ou mesmo a não ter vaidade alguma e passar a vida inteira debaixo de uma burca.

Somos educadas sistematicamente para reproduzir tradições familiares, para respeitar os mais velhos, ter bons modos, ser boa moça, ter responsabilidades, estudar, formar, casar, trabalhar, criar e reproduzir aos filhos o mesmo sistema de cultura, moral e educação.

Somos educadas para servir como armas de guerra, ser estuprada, morrer pós aborto clandestino, ficar calada, não denunciar o agressor, não olhar nos olhos, pedir permissão e obedecer.

Somos educadas para a vida doméstica, para a venda a qualquer preço, para a prostituição clandestina, para o casamento combinado entre famílias, para o casamento ainda na infância e o estupro coletivo, para o trabalho escravo, para o julgamento por qualquer que seja o motivo.

Somos educadas para sofrer ataque de ácido, ser queimada em fogueira, mutilada no parto, ser apedrejada, ver nossos filhos morrerem de fome.

Somos educadas a tomar cantadas de mau gosto, ser classificada pelo tamanho da saia, a gerar filhos por imposições familiares, a ser a culpada.

Longe da liberdade da Revolução Francesa que deu ao homem o direito de ser o que ele quer ser , a propriedade do corpo como território ainda é conquista da minoria feminina, o direito a saúde, a segurança, o fim das fobias , a liberdade sexual e descoberta do seu corpo como arma de prazer segue em muitas regiões em processo lento.

Somos parte da transformação pela liberdade da mulher, estamos sendo educadas para experimentar, sentir o prazer da luta, rever conceitos, dar espaço e voz ao corpo, mudar a história, somos uníssonas, somos mulheres. 

#ELLAvemAÍ

Texto produzido para o Encontro LatinoAmericano de Mulheres - ELLA
Maio - 2014 - BH